16 de mai de 2014

1ª Crônica Fotográfica: HOJE, 12:50hs, O MUNDO PAROU – por Wendell Léo


1ª Crônica Fotográfica: HOJE, 12:50hs, O MUNDO PAROU – por Wendell Léo
Após minha aula hoje cedo no Guará, fui até a asa sul resolver algumas coisas, e na correria do dia-a-dia onde quase nunca almoço, decidi ir almoçar.
Parei no Mercado Municipal, na W-3. Local que me apraz muito... me lembra São Paulo, me lembra minha infância, meus pais, sanduiche de mortadela....rs
Fiz meu pedido olhando pro relógio, pois outros compromissos urgem, e se eu me dei a esse luxo de parar pra almoçar, tem que ser rápido! Mas aí, exatamente 12:50hs, o mundo PAROU!
Sentado na mesa a minha frente, este senhor, que não sei o nome, nem de onde veio, nem pra onde vai... e que foi fotografado sem saber. Ao observar este senhor, parei tudo! Em um primeiro momento, vi o que a foto mostra... um senhor aparentando em torno de 66 anos, lendo um livro, tendo em sua frente uma garrafa de Bohemia, e um copinho de cachaça já devidamente esvaziado. Provavelmente seu tira-gosto antes de saborear um bolinho de bacalhau fantástico, que só no Mercado Municipal de São Paulo se encontra melhor.
Comecei a prestar atenção em sua roupa... um tênis cinza com um cadarço azul impossível de não ser percebido. Uma bermuda daquelas aparentemente bem confortáveis, e uma camisa estampada adornada com um óculos de sol descompromissada com qualquer nexo com o restante do conjunto. Cavanhaque bem feito, penteado ¨style¨, demonstrando que sim, a vaidade ainda pode estar presente em qualquer idade, desde que a gente se ame de verdade.
E esse ilustre desconhecido me fez refletir...
Onde estarei na idade dele? Conseguirei desfrutar uma quarta-feira regado ao frescor de uma cervejinha no meio do dia? Lendo um livro que aparentemente me parecia de poesias... sem compromisso com a hora, com a correria, com o trânsito? Trocamos meia dúzia de palavras quando ele me ouviu comentando com o garçom as minhas comparações com o Mercado Municipal de São Paulo. Onde ele concordou que tem certas coisas que só em SP mesmo... e só!
Continuei minha observação, e me vi neste senhor... me vi no futuro, tendo a mesma paz de espírito, a mesma vontade de interagir com o mundo e ao mesmo tempo me isolar em meu livro/cerveja/bacalhau/estilo pessoal. Coisa que só pode se dar ao luxo de fazer quem de alguma forma venceu na vida...
E vencer na vida não é ser empresário, rico, importante não! Vencer na vida é ser como ele: despreocupado, simpático com o próximo, aproveitando pequenos detalhes de uma vida que provavelmente foi árdua até chegar ali. Aqueles pequenos detalhes que fazem as grandes diferenças...
Junto desta observação do cotidiano, refleti sobre minha vida hoje... Cheia de planos ainda não realizados, cheia de expectativas cujas quais ainda tenho que correr atrás dos instrumentos para realizá-las... Cheia de saudades de uma época de minha vida em que jamais me preocuparia com nada disso, porém sem o saudosismo doloroso. Saudades, porém, que inovam e renovam a alma em busca dos chamados ¨sonhos¨.
E nesse ínterim, tenho me aberto a conhecer gente nova... gente que parece querer ¨agregar valor ao camarim¨...rs. E nem digo isso quanto ao coração, digo no sentido profissional mesmo. E sinto que preciso carregar mais gente comigo... é uma necessidade. Qualquer caminho sozinho faz com que não sobrem histórias para contar...
Percebi nesse senhor uma grossa aliança em sua mão esquerda... se é amado ou se ama eu não sei dizer... mas ninguém nessa paz de espírito, com a maturidade ampliada pelos anos se permitiria viver uma relação que não fosse frutífera. E no entanto ele está aí... sozinho nesse momento. Porque a individualidade é importante... e deve ser ótimo poder sair daí e ter pra quem voltar, e dizer sobre os pensamentos e reflexões do dia, a mesa de um botequim. E amar e ser amado nada mais é do que a consequência do encontro de almas afins, que não se completam, pois quem se completa é porque está faltando um pedaço... mas se somam na eternidade!
Certamente este senhor, para chegar nesta tarde no Mercado Municipal deste jeito, soube levar consigo quem acreditasse nos seus sonhos. Sua serenidade e paz demonstram isso: a certeza de dever cumprido.
Porém, neste cenário, percebi também um celular próximo ao livro... o que demonstra que a vida para ele não parou... ele continua produzindo! Continua ¨conectado¨! E o telefone dele toca... e a única coisa que consigo entender ele dizer pra outra pessoa: - Calma! Tudo irá se resolver...¨
E aí, quando olho pro relógio, já são 13:40hs... lembro que preciso voltar pra correria.... Materiais, apostilas, e-mails, marcações de aulas, preparar as 2 palestras desta quinta e sexta... passar no banco, passar nos meus pais (porque depois disso, eu realmente PRECISO dar um abraço neles), pegar o documento do meu carro, comprar veneno pra mato, comprar ração pros cães, pagar a faxineira, dar uma arrumada na casa, ligar pro pedreiro, passar roupa, mandar o material pra Regina, marcar o complemento com a Veronica, ligar para o Luiz, responder duvidas atrasadas a uma semana, ufaaaaaaaaaa.... aproveitar uma das raras noites sem aula para organizar tudo isso!
Mas não sem antes, ao levantar da mesa, me aproximar, olhar nos olhos dele e dizer: - Até mais senhor! Obrigado por tudo!!!
Ele me respondeu: - Obrigado pelo que meu jovem?
Não respondi.... fui embora, apenas sorrindo!!!

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