22 de fev de 2011

Inflação não dói...

Um texto interessante sobre Inflação, de Ricardo Gallo

Um dos debates mais interessantes sobre o processo inflacionário diz respeito à tolerância inflacionária. Várias pessoas argumentam que é preferível um pouco mais de inflação a um custo elevado para combatê-la. Eles defendem que se forem elevados os juros, o investimento irá se reduzir o que é muito ruim para a economia. Logo, justificar-se-ia uma inflação maior no curto prazo.
Eu não consigo discordar mais desta linha de pensamento. E gostaria de listar aqui meus argumentos: Inflação é de fato um imposto sobre os mais pobres. Na medida em que os mais pobres têm um poder menor de barganha salarial, e não conseguem indexar seus salários na mesma velocidade que os empresários fazem nos produtos e serviços por eles vendidos, quando a inflação sobe , diminui-se o poder de compra das pessoas assalariadas. Assim, a inflação induz a uma redução do consumo das pessoas, pois sua renda real cai. No agregado, assumindo uma elevação de 3% AA na inflação, haveria uma queda de 1.5% no poder de compra das pessoas. Ou seja, no agregado a renda dos trabalhadores cai em 1.5%, o que é equivalente a uma elevação do desemprego de 6% para 7.5%…
Além desta questão de justiça social, a experi6encia passada no Brasil mostra que quando inflação começa a subir, cria-se um processo crescente de indexação de contratos, pois sociedade pretende se proteger legitimamente da alta dos preços e da queda de sua renda real. Sabemos que este processo leva a mais inflação, criando um ciclo negativo, que pode levar ao completo descontrole monetário
Inflação mais elevada reduz o prazo dos contratos na sociedade, como financiamento a consumo e imobiliário. Os agentes financiadores ficam inseguros em operar em prazos mais elevados, dada enorme incerteza com relação às taxas de juros futuras num cenário de inflação elevada. Esta redução de prazos reduz por sua vez a capacidade de compra dos consumidores de baixa renda.
Uma elevação da inflação aumenta a valorização do real, mesmo que moeda fique em termos nominal estável diante do Us$. Como inflação nos EUA é menor que aqui (1.5% lá VS. 6% AA aqui), se câmbio US$ / R$ ficar parado onde está significa que estamos reduzindo a competitividade de nossas exportações em aprox. 4.5% AA.
Com inflação mais elevada, eleva-se risco macroeconômico. Com a persistência de tal inflação é possível que investidores locais comecem a se preocupar com perda do poder de compra de seus R$ e comecem a retirar capital d o volume no Brasil, comprando US$, o que forçaria uma desvalorização acentuada do R$, aumentando o custo dos produtos importados, o que realimentaria uma alta da inflação.
Entre os países mais avançados, não há casos de meta de meta de inflação acima de 3% AA. Logo, se desejamos pertencer a esta liga, uma inflação de 6% AA não combina…
O custo de combate a inflação por alta de juros é menor quanto mais rápido o BC agir. Logo, todo este debate Cria um ambiente político que pode causar um atraso na atuação do BC, na medida em que aqui no Brasil os governos dos últimos 16 anos não querem dar autonomia ao BC, pois querem poder manipulá-lo politicamente.
Temos enorme espaço para reduzir gasto público, o que aliviaria a pressão na demanda, segurando a alta dos preços. Logo, pergunto: é melhor apertar os cintos do povo ou do governo?
O impacto negativo de uma elevação dos juros no investimento privado é pequeno. Os empresários quando investem não estão olhando a economia nos próximos 12 meses, mas sim nos próximos cinco anos. Eles sabem lá no seu íntimo, que inflação é ruim para suas vendas. Porém ficam pressionando o BC através da mídia na esperança de que os juros subam pouco…
Enfim, não consigo engolir este argumento que um pouco de inflação não é ruim. Mas este tapinha me parece injusto. O que me deixa mais estupefato é o nosso histórico hiperinflacionário. Deveríamos, a esta altura, já ter aprendido sobre o perigo de uma inflação elevada ou que se acelera. Demoramos quase 10 anos, de 1985 até 1994 para controlar uma das mais elevadas taxas de inflação da história e tem gente agora querendo brincar com fogo! A boa notícia é que parece que nossa presidenta não está disposta a entrar nesta conversinha de tapinha...

E da-lhe Dilmaaaaaargggghhhhhhhh!!!!

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